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Teatro e Terapia PDF Print E-mail

Traduzir-se
Ferreira Gullar


Uma parte de mim é todo mundo
outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera
outra parte delira.

Uma parte de mim almoça e janta
outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente

outra parte se sabe de repente.

Uma parte de mim é só vertigem
outra parte, linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte
- que é uma questão de vida ou morte -
será arte?

Fagner canta o que Ferreira Gullar escreveu e o que os estudiosos so ser humano e da psicologia confirmam: nós somos seres complexos, múltiplos, compostos de diferenças. Mas nossa necessidade de sermos "bons" e "aceitos" pela sociedade faz com que nosso lado mais intuitivo, instintivo, espontâneo, criativo e até mesmo violento e agressivo, seja reprimido, fique à "sombra", escondido. As normas sociais tendem a reprimir esses conteúdos porque temem a perda do controle, temem o caos.

Acontece que esses conteúdos permanecem dentro de nós, eles não são extintos. Se quisermos gozar de alguma saúde (física e mental), precisamos confrontá-los e assimilá-los.

Muitos problemas e mesmo doenças têm sua origem nessa compartimentação do nosso "eu", da não aceitação de partes importantes de nós, da repressão excessiva dessas emoções profundas.

O processo de auto-conhecimento e de individuação (Jung) passa pelo enfrentamento de nossas "sombras" e pela tentativa de aproximação deças, compreendendo, dissolvendo nós, compondo novos seres; complexos sim, paradoxais também, mas integrados; permitindo um diálogo harmonioso entre as diferenças que nos habitam.